domingo, 27 de março de 2011

Vocação: Chamado de Deus


Shalom Maná: Você poderia falar sobre o que é vocação? 

Marcelo Freitas: Sabemos que a palavra vocação vem do verbo latino "vocare", que significa "chamar", ou seja, toda vocação compreende um chamado. Assim, toda vocação comporta aquele que chama (Deus) e aquele que é chamado (o homem). O tema vocação é profundo e muito abrangente, uma vez que Deus está sempre a nos chamar. Ao sermos gerados, Deus nos concede nossa primeira vocação, que é o chamado à vida. Em seu desígnio de amor, chama-nos também à filiação divina, à santidade e a uma vocação específica, através da qual amaremos e serviremos mais e melhor a Ele, à Igreja e aos homens. Na verdade, até no momento da nossa morte Deus está nos chamando, e que grande chamado o dessa hora: habitar eternamente na casa do Senhor. 

Como acontece um despertar vocacional? 

Deus é o autor de toda verdadeira vocação e por isso Ele é o primeiro interessado nela. Em sua divina providência, serve-se constantemente de mediadores para que despertemos para o seu chamado, que é sempre um chamado de amor e para o amor. Essas mediações podem acontecer através de pessoas, objetos, situações, que de alguma forma fazem o jovem perceber que um plano amoroso e sobrenatural o envolve e que uma voz, ao mesmo tempo terna e forte, o chama. Aquela mediação exterior encontra uma ressonância interior e dessa forma se dá o despertar vocacional. Existem pessoas que se descobrem vocacionadas ao partilhar com um irmão consagrado a Deus, outras ao participar de uma cerimônia de ordenação sacerdotal, outras ainda através de um folder vocacional, de uma palestra, sei lá, de tantas maneiras, pois Deus se serve de tudo para nos atrair ao seu projeto para nossas vidas. 

Como uma pessoa sabe que determinada vocação é a sua? 

Um homem casado sabe que não foi preciso conhecer todas as mulheres do mundo para escolher a sua, pois em um determinado momento de sua história ele encontrou aquela que para ele era diferente, que o completava de uma forma única. O mesmo podemos falar de vocação. Ninguém precisa sair "caçando" a sua vocação. Se estivermos abertos e possuirmos um coração sincero, Deus vai nos fazer encontrar a nossa vocação, o seu chamado para a nossa vida, e quando isso acontece passa a existir uma identidade com aquele carisma, com aquele estado de vida, com aquela vocação. Descobrimos que fomos criados para aquilo e que ali está nossa realização, nossa felicidade. 

O que uma pessoa que está buscando sua vocação deve fazer? 

Como já disse, é preciso ter primeiramente abertura e sinceridade para conhecer e fazer a vontade de Deus, pois não basta querer saber a vontade de Deus se não temos disposição para cumpri-la. Depois, é fundamental uma autêntica vida de oração, uma vez que é Deus o autor do chamado e é sobretudo na oração que se escuta a sua voz. É de grande importância também estarmos abertos às manifestações da providência de Deus que nos fala de diversas maneiras, porém, sem vida espiritual, sem contemplação, não saberemos o que realmente é sinal de Deus e podemos chamar os nossos próprios desejos de voz de Deus. Deve-se ainda buscar o auxílio de uma pessoa mais amadurecida, mais caminhada, pois ninguém é bom juiz em causa própria, como diz Santa Teresa de Jesus. 

Quais são as verdadeiras motivações para uma pessoa abraçar determinada vocação? 

É claro que quando um jovem se sente atraído a uma determinada vocação ele traz uma série de motivações: a vida em comum, o serviço ao outro, a missão, tantas coisas. Mas Deus é a única motivação suficiente para que alguém abrace uma vocação. Era esse o critério de admissão na vida monástica. Quando alguém batia à porta do mosteiro, o abade perguntava: o que desejas? A única resposta coerente era: desejo Deus, quero Deus. Se a resposta fosse outra, por mais bela que fosse, ele não era recebido entre os monges. Para melhor amar e servir a Deus deve ser a motivação de alguém que contrai matrimônio, que se consagra na vida religiosa ou que se ordena sacerdote. Devemos sempre nos perguntar: como e onde posso melhor amar e servir ao meu Senhor? Na resposta a essa pergunta está a nossa vocação. 

É verdade que faltam vocações para o sacerdócio e para a vida consagrada? 

Particularmente acho que não. Dizer isso é afirmar que o homem de hoje não tem mais anseio de grandes ideais e que Deus não mais convida as pessoas a seguirem seu Filho. Graças a Deus existem muitas comunidades, congregações e seminários repletos de jovens que desejam consumir sua existência no serviço do Reino. João Paulo II diz que as vocações brotam como uma resposta de Deus a uma comunidade orante. Penso que quando "faltam" as vocações é porque faltam comunidades suplicantes, ajoelhadas. Faltam institutos fiéis ao carisma do fundador, faltam consagrados que testemunhem com alegria o dom da sua pertença ao Senhor. Quando temos autenticidade, contemplação, radicalidade evangélica, amor a Deus, à Igreja e à humanidade, temos abundância de vocações, os jovens se sentem atraídos e motivados a seguir Jesus pelo caminho da pobreza, obediência e castidade. 

O que é a Assessoria Vocacional e qual sua finalidade? 

A Assessoria Vocacional é um setor do governo geral da Comunidade Católica Shalom que tem como missão despertar, animar, acompanhar e discernir as vocações para a Comunidade. Trabalhamos através de grupos vocacionais que se reúnem mensalmente e de acompanhamentos pessoais periódicos. 

Como uma pessoa sabe que o seu chamado é para a Vocação Shalom? 

Como eu já respondi em uma das perguntas, ninguém precisa sair "caçando" sua vocação, pois quando você encontra a sua o seu coração bate diferente, você se identifica, descobre o seu lugar. Quando alguém é chamado por Deus para a vocação Shalom ele se identifica com a nossa forma de ser, de viver, de servir. Identifica-se com o chamado que temos para a contemplação, unidade e evangelização. Identifica-se com a nossa forma de viver a pobreza, a obediência e a castidade. Encontra-se na nossa missão de discípulos e ministros da Paz, com a vida missionária, com nosso grande amor pela Igreja e assim por diante. 

Qual é o processo para uma pessoa ingressar na Comunidade Católica Shalom? 

Se esta pessoa reside em uma cidade onde temos casa ela deve engajar-se em um dos nossos grupos vocacionais, caso contrário, deve escrever para a Assessoria Vocacional e solicitar um acompanhamento por carta. Depois de um bom tempo de caminhada no grupo ou no acompanhamento por carta o candidato faz um período de experiência e por fim um retiro vocacional. Após o retiro, se ela realmente se sente chamada à Vocação Shalom, então solicita ingresso no postulantado. Em seguida, com a anuência das autoridades da Comunidade, faz dois anos de noviciado e depois pode realizar sua primeira consagração com votos temporários. 

O que você diria para alguém que está discernindo sua vocação? 

Eu sempre digo que se fosse necessário passaria por tudo novamente, faria as mesmas opções, para estar onde hoje estou: no interior da Comunidade. Encontrar seu lugar, a razão da sua existência é a melhor coisa da vida. Se você está caminhando em um processo de discernimento vocacional tenha coragem, saiba enfrentar as barreiras e os obstáculos, lute por esta pedra preciosa que é a sua vocação. Saiba que Deus não tem uma armadilha para você e que o chamado dele é sempre para a felicidade, pois para isso é que fomos criados. Repito: coragem. Estarei rezando por você. Shalom! 

Acompanhamento Vocacional por Carta 

Se você deseja conhecer mais a nossa vocação e iniciar um caminho de discernimento vocacional, Entre em contato conosco! 
- Projeto Juventude para Jesus
  A humanidade toda – sobretudo a juventude – tem sede de radicalidade, da verdade, de liberdade. Diante da descoberta do amor de Deus, nossa vida se enche de sentido, tudo ganha novo colorido, o qual queremos manter. Aí entra a Igreja, fiel depositária e mestra por excelência de tão grande amor.
   Depositária e doadora de Jesus Eucarístico
   A Igreja é mãe, e como uma mãe zelosa e amorosa, alimenta seus filhos a fim de que cresçam fortes e saudáveis. Este alimento é a Eucaristia. Jesus se veste de fraqueza e nos oferece tudo, aliás, se oferece todo a nós: seu corpo, sangue, alma e divindade estão ali, ao nosso alcance e à nossa mesa!
   E dando-se todo, realiza em nós aquela revolução à qual o Papa João Paulo II nos convida e aponta o caminho: “Jovens de todos os continentes, não tenhais medo de ser os santos do novo milênio. Sede contemplativos e amantes da oração, coerentes com a vossa fé e generosos no serviço aos irmãos, membros vivos da Igreja e artífices da paz. E para realizardes esse importante projeto de vida, é preciso permanecer na escuta da palavra, haurir vigor dos sacramentos, especialmente da Eucaristia e da penitência”.
   Para conseguirmos manter a chama do amor acesa, o caminho é a oração. “A sós, com aquele que sabemos que nos ama”, colhemos o seu amor e aprendemos a retribuí-lo como Deus mesmo nos ensina. Mas não é suficiente rezar sozinho, aquela oração pessoal precisa ser fortalecida por momentos de oração em comum; aí corremos para a Missa, onde, unida, a comunidade dos fiéis rende graças ao Senhor por suas maravilhas.
Sustentados pela força do amor, alimentados pelo pão do céu, seremos membros vivos do corpo místico de Cristo (a Igreja), protagonistas da história, e não meros coadjuvantes.
   Casa de acolhida e serviço
   “Toda a Igreja é apostólica na medida em que é ‘enviada’ ao mundo inteiro; todos os membros, ainda que de formas diversas, participam deste envio” (Cat, 863).
Depois de ter nossa vida transformada e iluminada pela descoberta de que somos pessoal e infinitamente amados por Deus, não podemos guardar isso somente para nós. Sentimos a necessidade de dizer ao mundo o quanto somos felizes; queremos que toda a humanidade faça essa descoberta também, e fazemos essa “divulgação” da boa nova através das nossas palavras, sim – porque “a boca fala daquilo que o coração está cheio” –, mas sobretudo através da nossa vida, é ela que realmente testemunha a conversão que Cristo opera em nós.
   Na Igreja, somos acolhidos e aprendemos a acolher. Aprendemos a servir aqueles que chegam, que, por sua vez, depois de fortalecidos pelo pão da vida, também estarão fortes o suficiente para servir, porque Jesus ensinou: “Não vim para ser servido, mas para servir”.
Às vezes, na escola ou nos ambientes em que vivemos, as pessoas ficam espantadas com a nossa disposição de servir, de ajudar – nas pequenas coisas, mesmo: arrumar as cadeiras que estão bagunçadas antes da aula, apagar a lousa, emprestar o caderno para alguém que perdeu a aula anterior, tirar dúvidas de alguém em alguma disciplina... –, de não falar mal das pessoas nem julgar os professores, de saber o nome dos funcionários, especialmente os de cargos menos valorizados, e conversar com eles etc. Essa disposição de ir ao encontro do outro e ver nele Jesus nos é ensinada pela mãe Igreja, e essa nova forma de vida nos faz muito felizes!
   Na fase em que nos encontramos, somos “inquietos”, queremos mudar o mundo, desejamos implantar a verdade e a bondade na sociedade. Na Igreja, aprendemos que isso é impossível, mas que é possível dar a nossa parte, o nosso contributo para que algo – pela graça de Deus – mude em nós mesmos e nos ambientes em que vivemos, pois se plantamos paz, o que colheremos? Se plantamos amor, gratuidade e serviço, o que nos espera? A fé nos responde que Deus não decepciona.
   Uma experiência
   Como é próprio do jovem, sempre tive sede de novos desafios.
   Há algum tempo surgiram desafios alucinantes: drogas, álcool, sexo... Buscando lugar de destaque entre os “amigos” ou tentando ser o “radical”, ia sempre além do que podia. As drogas e o álcool foram tomando conta do meu ser, até que já não dormia sem estar sob o efeito de alguma coisa.
   O tempo ia passando e eu me afogando em minha própria lama. Porém, um “anjo” me socorreu: convidou-me a participar de um Seminário de Vida no Espírito Santo, dizendo que aquela seria uma “viagem” única para mim. Realmente foi! Encontrei e reconheci Jesus como meu Salvador e Ele tomou conta do meu ser.
Hoje, renovado pelo seu corpo e pelo seu sangue, vivo na esperança de subir ao céu e contemplar a face do meu Senhor!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Diversão? Sim! Pecado? Não!


- A juventude é um tempo em que estamos particularmente predispostos à alegria; à procura de divertimentos; abertos à novas experiências e sensações. É um tempo em que é praticamente impossível ficar parado! Nos envolvemos fácil e naturalmente em atividades agitadas que possam nos proporcionar “felicidade”, algum prazer, uma sensação de liberdade, de potência; de juventude mesmo. Temos necessidade de certa dose de aventura, precisamos descarregar adrenalina, colocar para fora toda a energia que temos armazenada em nós; e isso é muito bom. É sinal da nossa juventude, vitalidade e saúde física e mental.


Para encontrar o que procuramos, nos são oferecidas inúmeras opções. Esportes radicais para todos os gostos: rappel, mountain bike, trilha, skate, surf, bungee jump, alpinismo, snowboard (se bem que, no Ceará, sandboard é mais apropriado pela falta de neve...); Filmes de todos os gêneros: drama, policial, aventura, suspense, ficção científica, terror, romance “água com açúcar”; tudo isso sem falar nos muitos tipos de Festa que aparecem por aí todos os dias: festa à fantasia, luau ”não sei de quê”, uma noite “não sei onde”, as raves (aquelas festas meio clandestinas em que se ouve música e se dança ao ar livre ou em tendas), festivais de rock, boites... há também aquelas festas cujo tema são bebidas alcóolicas: festa da Tequila, festival da cerveja... Além de músicas nos mais variados ritmos, com letras com igual (ou até maior) variedade de níveis, para “dançar a noite inteira” ou então para “ouvir comendo chocolate”, como se costuma falar.


Sem dúvida, um verdadeiro banquete para os nossos sentidos!


Como sabemos, os sentidos são como que portas que dão aceso à nossa alma; e justamente por isso precisamos ter todo cuidado com aquilo que, de certa forma, permitimos que passe através delas. O bombardeio de sons, palavras, imagens, sensações enfim, nos fragiliza, nos deixa praticamente sem defesa; acaba por roubar nosso coração e pensamento do Bom, do Belo e surge em nossa consciência uma espécie de cortina de fumaça, que dificulta a distinção, a separação do que é bom e lícito para nós, daquilo que não nos convém como cristãos, como filhos muitíssimo amados de Deus. Desse modo, acabamos por expor nossa alma, nosso ser mais íntimo e as nossas faculdades (memória, afetividade... e especialmente a imaginação) à contaminações e feridas que poderiam muito bem ser evitadas se soubéssemos nos preservar, se ficássemos mais atentos ao que “engolimos” através dos nossos sentidos.


Selecionar nossos divertimentos de modo algum nos fará “menos jovens”; mas certamente nos tornará mais responsáveis por nós mesmos e pelas nossas escolhas, jovens maduros, que sabem do valor inestimável que têm e por isso zelam por si mesmos e pelos outros. Não é, de modo algum, impossível ser jovem, ser alegre e se divertir (e muito!) de maneira saudável; sem abrir espaço ao pecado e à contaminação pela via dos sentidos.


É preciso que tenhamos sempre a consciência de que somos Templo do Espírito Santo (cf. I Cor 6,19) e, portanto, precisamos vigiar rigorosamente a entrada da habitação do Senhor e glorificá-lo na nossa vida e no nosso corpo.


É urgente que estejamos atentos sempre e em todo lugar; que deixemos as obras das trevas e vistamos as armas da luz, assim nos fala S. Paulo na sua carta aos Romanos (cf. Rm 13, 11-14). Ele continua: “vivamos honestamente, como em pleno dia: não em orgias e bebedeiras, prostituição e libertinagem, brigas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não sigais os desejos dos instintos egoístas”. Como vemos, a sociedade daquele tempo tinha feridas parecidas com as nossas, não é verdade?


Então, em vez de ocuparmos nossos sentidos e faculdades com divertimentos que não fazem outra coisa senão nos empurrar para o pecado; nos “ocupemos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso, ou que de algum modo mereça louvor”.(cf. Fl 4,8) Assim seremos capazes de uma alegria perene, que não está condicionada ao uso de entorpecentes ou qualquer coisa semelhante, e principalmente, seremos capazes de divertimentos verdadeiros, que não contrariem nossa natureza.


Como jovens cristãos precisamos, sim, nos divertir. Mais ainda, precisamos ser alegres; mas acima de tudo, temos em nosso coração uma necessidade profunda de nos preservar daquilo que nos corrompe e afasta do Amor, sentido último da nossa existência.


Zelar pela nossa pureza, pela correção do nosso modo de agir, de vestir e de nos comportar; lutar pela pureza do nosso olhar, pela castidade no nosso modo de dançar; nos nossos relacionamentos cotidianos; selecionar as músicas que ouvimos; os lugares que freqüentamos; os filmes e programas que assistimos, nos recusando a prestigiar espetáculos degradantes... Tudo isso reflete a profunda gratidão do nosso coração ao Deus que nos ama e nos fez de modo tão maravilhoso!

BIBLIOGRAFIA
AUZENETE, Dominique. O Amor em treze etapas. Editora Paulus. Portugal: 2000.

Fonte: Revista Shalom Maná

domingo, 20 de março de 2011

Onde os jovens buscam e encontram a felicidade


- Arrumando meus velhos livros de estudante ginasial, empoeirados e esquecidos na pequena estante da sala, descobri um texto que, a uma altura de dez anos, me fez perceber quanta riqueza humana se esconde nas entrelinhas capaz de transformar uma historieta juvenil em uma fonte insondável de sabedoria. Era o conto Serespaperconfi, de Pedro Bandeira, com o qual já havia me deliciado antes e que agora ganha um sabor novo quando contrastado com a realidade afetiva dos tantos jovens de hoje. Fala da vida de quatro meninas que, embaladas pelas festinhas de sábado à noite, procuram ao máximo ficar com os gatinhos da escola para depois repassarem entre si os momentos mais envolventes, num ritmo de gostosa fofoca. Todas são bastante experientes, menos a introspectiva Marina que, nova na trupe, ainda não se habituou ao fulgor das outras e nunca experimentou o transe de uma boa ficada. As outras, num primeiro momento surpresas, decidem, então, lançá-la nos braços do mais novo galã da escola, amante do violão e transferido de uma cidade do interior, iniciando-a nas artes da paquera, ignorantes do fato de que esse mesmo rapaz já esquentara o coração de Marina.


No apartamento de uma delas, tudo é arranjado: a roupa mais transada, a música mais romântica, o clima mais agradável. O coração da pobre Marina dando sobressaltos e suas amigas, empolgadas, marcando o lanche num bar ali perto, esperando o fim da ficada para saberem de tudo. Enfim, o rapaz, Renato, chega, e os dois, na penumbra gostosa daquele fim de tarde de inverno, com aquela música suave ao fundo, vão se descobrindo em carícias, até que, num sobressalto, Marina breca tudo e foge, entre atarantada e envergonhada, para incógnita de Renato e das meninas.


O comportamento de Marina assombra a todos eles, mas a faz refletir em seu coração a profundidade do seu sentimento por Renato, descobrindo em si a pureza de um amor que deseja não uma ficada, mas uma entrega total e resoluta. Renato, para quem aquela quase-ficada deveria ser esquecida, assusta-se pelo fato de Marina não sair de seu pensamento. Procurando-a, descobre nela a sinceridade do afeto e indaga-lhe seu segredo. Ela, sacando de uma gramática, ensina-lhe a sabedoria dos verbos de ligação.


Para quem não gosta muito de gramática, é bom relembrarmos o que são os verbos de ligação. Estes são os que ligam o sujeito da frase a uma palavra que lhe qualifica, indicando um estado ou uma característica que lhe são próprios. Tal palavra é o predicativo do sujeito. A grandiosidade do conto reside quando fazemos o paralelo dele com a afetividade dos adolescentes de hoje, marcada pelo “ficar”, pelo transitório, pelo descartável, profundamente deslocada e fonte de inúmeras feridas. Tomando ao pé da letra, poderíamos expor, à luz do ensinamento gramático acima, a teoria do relacionamento ideal para os jovens de hoje. O sujeito, ou melhor, os sujeitos (haja vista que, no namoro, o sujeito é composto) são aqueles que encontram entre si afinidades bastantes para ficarem juntos, a ponto de iniciar uma relação. O predicativo seria, como já dito, aquilo que os qualifica (e santifica), enquanto seres humanos e dotados da graça da filiação a Deus. Ora, o melhor qualificativo dos cristãos é a própria Trindade que, em constante e perpétua relação de amor, ensina aos seus a profundidade da descoberta do outro enquanto conseqüência e causa de si mesmo. O verbo de ligação é aquilo que une os dois, sujeito e predicativo, fazendo-os imagem e semelhança, para que a Graça que impera no segundo seja o sustentáculo da química do primeiro. Pronto, temos a oração perfeita! Ops, oração é palavra chave...


Quando, na intimidade do namoro colocamos a estatura de Deus como objetivo de santidade e castidade, pela via da intimidade e da escuta, temos esta relação de amor contínua, traduzida em forma de constante oração.


Marina, apresentando a gramática a Renato, diz que não deseja apenas ficar com ele, mas ser dele, estar com ele, parecer ser dele, permanecer com ele, continuar com ele... Usando, enfim, de todos os verbos de ligação, mostra a via estreita do verdadeiro amor, que deve, sob a inspiração de Cristo, ser alicerçada na verdade e na busca do verdadeiro sentido da afetividade. Num texto encontrado no portal da Renovação Carismática do Brasil, encontrei esta frase conclusiva: “Namorar é dialogar!” Na relação de entrega que os filhos fazem ao Pai, da sua vida amorosa e da missão que essa relação resume, há a concordância de afeto e a purificação de intenções, mostrando-se a verdadeira missão do conviver e do amor esponsal.


O catecismo da Igreja nos diz que “Deus, que criou o homem por amor, também o chamou para o amor, vocação fundamental e inata de todo ser humano. Pois o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, que é Amor” (CIC 1604). Ajuntar ao seio da relação a honrosa presença de Deus é atestar na vida em comum a vontade de elevar o amor à dimensão divina, colocando o Senhor na intimidade mesma do casal, como elemento que o cimenta. Disso depreende-se que o simples “ficar” não se compatibiliza com a verdadeira vocação do homem, que é o amor, pois aquele verbo, embora seja de ligação, é insuficiente para a prática do amor ao qual Deus nos incentiva. Ele transforma o outro no descartável, no facilmente dispensável, transformando-nos em autômatos, frágeis porque distantes da nossa verdadeira vocação. Foi por isso que Marina, a sábia personagem do conto, saiu à cata dos outros verbos de ligação, pois eles todos, juntos, tornam perfeitos os desígnios de Deus para nós. Ela mesma sentiu a imperfeição do “ficar” por si mesmo, procurando o algo mais, que Deus pede de nós em nosso namoro, na conjunção do continuar , do permanecer , do ser , do estar , do parecer ... É Deus que, implantando-se no seio do namoro, etapa fundamental da relação entre homem e mulher, opera entre eles a complementaridade, “de modo que já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,6).


E Renato, depois da exposição de Marina, o que fez? Ligou para ela no dia seguinte, a voz ainda indecisa, dizendo: “Eu... queria... Eu queria serespaperconfi com você...”.

Shalom Maná

domingo, 13 de março de 2011

Sobre a Quaresma, tempo de espera


A palavra Quaresma vem do latim quadragésima e é utilizada para designar o período de quarenta dias que antecedem a festa ápice do cristianismo: a ressurreição de Jesus Cristo, comemorada no famoso Domingo de Páscoa. A quaresma começa na quarta-feira de cinzas e termina na quinta-feira da Semana Santa. O período é reservado para a reflexão, a conversão espiritual. Somos convidados a fazer uma comparação entre nossas vidas e a mensagem cristã expressa nos Evangelhos. Esta comparação significa um recomeço, um renascimento para as questões espirituais e de crescimento pessoal. Essencialmente, o período é um retiro espiritual voltado à reflexão, onde nos recolhemos em oração e penitência para preparar o espírito para a acolhida do Cristo Vivo, Ressuscitado no Domingo de Páscoa. Assim, retomando questões espirituais, simbolicamente o cristão está renascendo, como Cristo. A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa luto e penitência.

O que os cristãos devem fazer no tempo de Quaresma?
A Igreja católica propõe, por meio do Evangelho proclamado na quarta-feira de cinzas, três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade. Não somente durante a Quaresma, mas em todos os dias de sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus, ou seja, lutar para que exista justiça, a paz e o amor em toda a humanidade. Os cristãos devem então recolher-se para a reflexão para se aproximar de Deus. Esta busca inclui a oração, a penitência e a caridade, esta última como uma conseqüência da penitência.

Ainda é costume jejuar durante este tempo?
AiSim, ainda é costume jejuar na Quaresma, ainda que ele seja válido em qualquer época do ano. A igreja propõe o jejum principalmente como forma de sacrifício, mas também como uma maneira de educar-se, de ir percebendo que, o que o ser humano mais necessita é de Deus. Desta forma se justifica as demais abstinências, elas têm a mesma função.
Oficialmente, o jejum deve ser feito pelos cristãos batizados, na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa. Pela lei da igreja, o jejum é obrigatório nesses dois dias para pessoas entre 18 e 60 anos. Porém, podem ser substituídos por outros dias na medida da necessidade individual de cada fiel, e também praticados por crianças e idosos de acordo com suas disponibilidades.
O jejum, assim como todas as penitências, é visto pela igreja como uma forma de educação no sentido de se privar de algo e reverte-lo em serviços de amor, em práticas de caridade. Os sacrifícios, que podem ser escolhidos livremente, por exemplo: um jovem deixa de mascar chicletes por um mês, e o valor que gastaria nos doces é usado para o bem de alguém necessitado.


O que é a Campanha da Fraternidade?
O percurso da Quaresma é acompanhado pela realização da Campanha da Fraternidade – a maior campanha da solidariedade do mundo cristão. Cada ano é contemplado um tema urgente e necessário.
A Campanha da Fraternidade é uma atividade ampla de evangelização que ajuda os cristãos e as pessoas de boa vontade a concretizarem, na prática, a transformação da sociedade a partir de um problema específico, que exige a participação de todos na sua solução. Ela tornou-se tão especial por provocar a renovação da vida da igreja e ao mesmo tempo resolver problemas reais.
Seus objetivos permanentes são: despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor: exigência central do Evangelho. Renovar a consciência da responsabilidade de todos na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária.
Os temas escolhidos são sempre aspectos da realidade sócio-econômico-política do país, marcada pela injustiça, pela exclusão, por índices sempre mais altos de miséria. Os problemas que a Campanha visa ajudar a resolver, se encontram com a fraternidade ferida, e a fé, tem o compromisso de restabelecê-la. A partir do início dos encontros nacionais sobre a CF, em 1971, a escolha de seus temas vem tendo sempre mais ampla participação dos 16 Regionais da CNBB que recolhem sugestões das Dioceses e estas das paróquias e comunidades.


Qual é a relação entre Campanha da Fraternidade e a Quaresma?
A Campanha da Fraternidade é um instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão e renovação interior a partir da realização da ação comunitária, que para os católicos, é a verdadeira penitência que Deus quer em preparação da Páscoa. Ela ajuda na tarefa de colocar em prática a caridade e ajuda ao próximo. É um modo criativo de concretizar o exercício pastoral de conjunto, visando a transformação das injustiças sociais.
Desta forma, a Campanha da Fraternidade é maneira que a Igreja no Brasil celebra a quaresma em preparação à Páscoa. Ela dá ao tempo quaresmal uma dimensão histórica, humana, encarnada e principalmente comprometida com as questões específicas de nosso povo, como atividade essencial ligada à Páscoa do Senhor.


CNBB

Castidade, por que vivê-la?


De todos os desafios que podemos viver, como jovens, no mundo de hoje, não existe maior do que a castidade. O mundo, infelizmente, quer nos ensinar que não há motivos para vivê-la e que devemos buscar a felicidade numa vida cheia de prazeres e satisfação. Castidade, pelo que se entende por aí, é sinônimo de privação, de angústia e de luta contra a própria natureza, já que também somos animais. A pergunta que mais se deve fazer, em contrapartida, é a seguinte: “Castidade, por que vivê-la?”.

Um primeiro grande motivo para se viver a castidade é o amor a Deus. Digo isto porque se trata do sexto mandamento: não pecar contra a castidade. Quem ama a Deus busca a castidade por seu amor e quer viver unicamente conforme a Sua santa vontade, ainda porque afirma Santa Catarina de Sena ser este o pecado que mais ofende a Deus. Pense você, comigo, se tanto ofende ao coração de Deus, porque fazê-lo?

Não sendo convencido por este motivo, afirmo que o incasto (que não vive a castidade) é um idólatra, idólatra do prazer, do próprio corpo e do outro. A castidade não abrange tão somente a vida sexual, mas também afetiva, porque castidade é dar a Deus o seu lugar, em detrimento de outras pessoas. Não é casto aquele que coloca outra pessoa no lugar de Deus, e não digo isto só para namorada, falo também de mãe, pai, amigo. Aquele que coloca qualquer pessoa no lugar que Deus deve estar, qual seja, o primeiro e absoluto, é tudo menos casto. Não só isto, mas o pecado de impureza também é idolatria do próprio corpo, quando o colocamos acima daquilo que Deus quer para nós; e, ainda, o pior de tudo, é quando somos impuros por puro desejo de saciar a nossa vontade, de obter prazer. O prazer é bom, se não Deus não o teria criado (até porque tudo que Ele criou é bom), mas o prazer deve ser obtido de forma casta. Como isto é possível? Dentro casamento ou em outra realidade que não for a sexual.

Se isto ainda não bastar, saiba que o casto é, antes de tudo, livre. Não é escravo das paixões, do próprio corpo, dos próprios desejos, mas sabe ordenar toda a sua vida sem muito esforço. Muitas vezes quando não conseguimos viver uma vida organizada, mas, pelo contrário, é tudo uma bagunça, tudo um descontrole, devemos pensar que nos falta um pouquinho ou um bocado de castidade.

Se ainda não o convenci, saiba que a sua natureza é santa e que você não é só feito de um corpo, mas que ele é a parte mais inferior da sua realidade como ser humano. Você tem uma alma, tem um espírito. Falando neste, a quem quiser provar, digo, sem medo de ser feliz, que os prazeres do espírito são incomparavelmente superiores aos da carne, e como são! Mas, voltando ao que quero dizer, você tem uma alma que é onde Deus habita em você. É... Deus habita em você. Não só isso como toda a pureza que você tiver, em vez de ser algo que seja causa de transtorno para sua vida, na verdade, vai ser toda a solução. Tudo que é Deus em você há de brilhar, porque o seu espírito, a sua alma, vão gozar de satisfação que é complicada de se explicar. Assim você foi feito.

Se isso tudo não foi suficiente, pense numa criatura difícil de convencer você é! Mas Deus, que é Deus, com certeza vai arranjar um argumento ainda melhor para te convencer a viver o que mais dignifica o nosso ser e nos torna irmãos dos anjos. É verdade que é difícil, mas, assim que for convencido, se quiser mesmo vive-la, vai fazer de tudo para conseguir.

por Igor Rafael Oliveira Carneiro – Vocacionado da Comunidade Shalom

quinta-feira, 10 de março de 2011

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA BENTO XVI PARA A QUARESMA DE 2011 «Sepultados com Ele no baptismo, foi também com Ele que ressuscitastes» (cf. Cl 2, 12)

Amados irmãos e irmãs!
A Quaresma, que nos conduz à celebração da Santa Páscoa, é para a Igreja um tempo litúrgico muito precioso e importante, em vista do qual me sinto feliz por dirigir uma palavra específica para que seja vivido com o devido empenho. Enquanto olha para o encontro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a Comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade laboriosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para haurir com mais abundância do Mistério da redenção a vida nova em Cristo Senhor (cf. Prefácio I de Quaresma).

1. Esta mesma vida já nos foi transmitida no dia do nosso Baptismo, quando, «tendo-nos tornado partícipes da morte e ressurreição de Cristo» iniciou para nós «a aventura jubilosa e exaltante do discípulo» (Homilia na Festa do Baptismo do Senhor, 10 de Janeiro de 2010). São Paulo, nas suas Cartas, insiste repetidas vezes sobre a singular comunhão com o Filho de Deus realizada neste lavacro. O facto que na maioria dos casos o Baptismo se recebe quando somos crianças põe em evidência que se trata de um dom de Deus: ninguém merece a vida eterna com as próprias forças. A misericórdia de Deus, que lava do pecado e permite viver na própria existência «os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2, 5), é comunicada gratuitamente ao homem.
O Apóstolo dos gentios, na Carta aos Filipenses, expressa o sentido da transformação que se realiza com a participação na morte e ressurreição de Cristo, indicando a meta: que assim eu possa «conhecê-Lo, a Ele, à força da sua Ressurreição e à comunhão nos Seus sofrimentos, configurando-me à Sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos» (Fl 3, 10-11). O Baptismo, portanto, não é um rito do passado, mas o encontro com Cristo que informa toda a existência do baptizado, doa-lhe a vida divina e chama-o a uma conversão sincera, iniciada e apoiada pela Graça, que o leve a alcançar a estatura adulta de Cristo.
Um vínculo particular liga o Baptismo com a Quaresma como momento favorável para experimentar a Graça que salva. Os Padres do Concílio Vaticano II convidaram todos os Pastores da Igreja a utilizar «mais abundantemente os elementos baptismais próprios da liturgia quaresmal» (Const. Sacrosanctum Concilium, 109). De facto, desde sempre a Igreja associa a Vigília Pascal à celebração do Baptismo: neste Sacramento realiza-se aquele grande mistério pelo qual o homem morre para o pecado, é tornado partícipe da vida nova em Cristo Ressuscitado e recebe o mesmo Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos (cf. Rm 8, 11). Este dom gratuito deve ser reavivado sempre em cada um de nós e a Quaresma oferece-nos um percurso análogo ao catecumenato, que para os cristãos da Igreja antiga, assim como também para os catecúmenos de hoje, é uma escola insubstituível de fé e de vida cristã: deveras eles vivem o Baptismo como um acto decisivo para toda a sua existência.

2. Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor – a festa mais jubilosa e solene de todo o Ano litúrgico – o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus? Por isso a Igreja, nos textos evangélicos dos domingos de Quaresma, guia-nos para um encontro particularmente intenso com o Senhor, fazendo-nos repercorrer as etapas do caminho da iniciação cristã: para os catecúmenos, na perspectiva de receber o Sacramento do renascimento, para quem é baptizado, em vista de novos e decisivos passos no seguimento de Cristo e na doação total a Ele.
O primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição do homens nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida (cf. Ordo Initiationis Christianae Adultorum, n. 25). É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso» (Hb 6, 12), no qual o diabo é activo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.
O Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt 17, 1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb 4, 12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.
O pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23). Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho.
O domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz».
Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, somos postos diante do último mistério da nossa existência: «Eu sou a ressurreição e a vida... Crês tu isto?» (Jo 11, 25-26). Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré: «Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (v. 27). A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele. A fé na ressurreição dos mortos e a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à economia. Privado da luz da fé todo o universo acaba por se fechar num sepulcro sem futuro, sem esperança.
O percurso quaresmal encontra o seu cumprimento no Tríduo Pascal, particularmente na Grande Vigília na Noite Santa: renovando as promessas baptismais, reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou quando renascemos «da água e do Espírito Santo», e reconfirmamos o nosso firme compromisso em corresponder à acção da Graça para sermos seus discípulos.

3. O nosso imergir-nos na morte e ressurreição de Cristo através do Sacramento do Baptismo, estimula-nos todos os dias a libertar o nosso coração das coisas materiais, de um vínculo egoísta com a «terra», que nos empobrece e nos impede de estar disponíveis e abertos a Deus e ao próximo. Em Cristo, Deus revelou-se como Amor (cf 1 Jo 4, 7-10). A Cruz de Cristo, a «palavra da Cruz» manifesta o poder salvífico de Deus (cf. 1 Cor 1, 18), que se doa para elevar o homem e dar-lhe a salvação: amor na sua forma mais radical (cf. Enc. Deus caritas est, 12). Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo. O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31).
No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projectos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos...». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma...» (Lc 12, 19-20). A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia.
Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Baptismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de facto, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que «as suas palavras não passarão» (cf. Mc 13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna.

Em síntese, o itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é «fazer-se conformes com a morte de Cristo» (Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela acção do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo. O período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo.

Queridos irmãos e irmãs, mediante o encontro pessoal com o nosso Redentor e através do jejum, da esmola e da oração, o caminho de conversão rumo à Páscoa leva-nos a redescobrir o nosso Baptismo. Renovemos nesta Quaresma o acolhimento da Graça que Deus nos concedeu naquele momento, para que ilumine e guie todas as nossas acções. Tudo o que o Sacramento significa e realiza, somos chamados a vivê-lo todos os dias num seguimento de Cristo cada vez mais generoso e autêntico. Neste nosso itinerário, confiemo-nos à Virgem Maria, que gerou o Verbo de Deus na fé e na carne, para nos imergir como ela na morte e ressurreição do seu Filho Jesus e ter a vida eterna.


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por Papa Bento XVI 

A Urgência da Conversão

A urgência da conversão atravessa toda a sagrada Escritura; ela corresponde à veemência do amor de Deus por nós, à urgência do Reino de Deus. A pessoa de Jesus significa um passo decisivo na realização desse Reino de Deus. Deus nunca esteve tão próximo de nós e tão acessível a Sua intimidade. Essa é a boa notícia do Reino, que constitui o primeiro anúncio da pregação profética de Jesus: “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai na boa-nova” (Mc. 1,15). A urgência da conversão está, igualmente, expressa no veemente apelo do Apóstolo Paulo: “Nós vo-lo pedimos por amor de Cristo: reconciliai-vos com Deus” (2Cor. 5,20).

Porquê esta urgência da conversão? Ela é, fundamentalmente, uma urgência de Deus. Jesus Cristo é a manifestação radical e definitiva do amor de Deus por nós. Mas para que esse amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, se torne comunhão de amor, mistério de aliança vivida, nós temos de nos abrir a esse amor, desejá-lo no íntimo do nosso ser, mudar em nós aquelas atitudes que o dificultam ou mesmo impedem. Para que Deus se reconcilie connosco, nós temos de nos reconciliar com Deus. A conversão é um regresso a Deus, á confiança, à fidelidade, à esperança de O encontrar e de com Ele conviver. “Voltai para Mim de todo o coração… Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes… Voltai para o Senhor vosso Deus” (Joel 2,12-13).

Só o regresso a Deus é verdadeiramente urgente na nossa vida, porque só Deus é absolutamente indispensável e necessário. O convite à conversão é um convite à fé, à confiança, à fidelidade. Para nós, os crentes, é um convite para tomarmos Deus a sério, como Deus Vivo, ansioso por se encontrar connosco. Converter-se é escutar com amor a Sua Palavra, é procurar na oração o restabelecer de uma intimidade, exprimir no arrependimento uma mágoa sentida por O termos ofendido. Não nos convertemos por medo, mas por amor, pois só a confiança do amor vence o medo. Para os descrentes, se chegarem a ouvir este convite à conversão, ele é o anúncio que Deus é bom e que é bom acreditar em Deus.

O convite à conversão dirige-se a todos, pois é com todos os homens que Deus deseja estabelecer uma aliança de amor, a nova e definitiva aliança ratificada na Páscoa de Jesus. Segundo o Profeta Joel, esse apelo à conversão é dirigido a toda a assembleia do Povo de Deus: aos anciãos, às crianças, mesmo de tenra idade, aos recém-casados, aos sacerdotes que servem o Povo do Senhor.

Este apelo à conversão mantém a sua atualidade, em todos os tempos, porque é dirigido, em nome de Deus, pela Igreja, sacramento de Jesus Cristo. É essa a consciência do Apóstolo Paulo: “Nós somos embaixadores ao serviço de Cristo: é Deus que exorta por nosso intermédio” (2Co. 9,20). A quem dirige, hoje, a Igreja este apelo à conversão? Tal como nos tempos do Profeta Joel, ela dirige-o, antes de mais, a toda a assembleia do Povo do Senhor. O apelo à conversão de que a Igreja é porta-voz, em nome de Cristo, dirige-se, primeiramente, a ela própria, de quem o Senhor espera que seja o Povo do Seu enlevo, que Ele quer amar como um esposo ama uma esposa.

Dirige-se, antes de mais, a nós sacerdotes, que Ele enviou ao Seu Povo com a solicitude do Bom Pastor, para que deixemos que toda a nossa vida seja repassada pela exigência dessa missão, e tudo em nós, o que somos e o que temos, possa ser sacramento do amor.

Dirige-se, depois, a todos aqueles e aquelas que consagram totalmente a sua vida a Deus, para o serviço do Reino, para que busquem na intimidade da oração a radicalidade do dom, e que não retirem, em nenhum momento das suas vidas, nada do que um dia consagraram ao Senhor, antes o radicalizem na perfeição da sua vivência.

Dirige-se ainda a todos os cristãos que exercem na Igreja um serviço, para a propagação da fé, para a prática da caridade ou na celebração comunitária do mistério da salvação. A todos esses o Senhor chama, na realidade das suas vidas e no concreto da sua missão, a crescerem na fé e na fidelidade ao Senhor que os chama e os ama.

Dirige-se também àqueles cristãos cuja missão é serem testemunhas do amor de Deus no meio da cidade, no seu trabalho, nas responsabilidades sociais, económicas e políticas, para que encontrem em Deus a luz que os guia, a força que os move e a exigência que os fortalece na luta pela verdade, pela justiça, pela honestidade, pela defesa e promoção da vida.

Este convite à conversão é, hoje, particularmente dirigido a tantos cristãos, que sem terem perdido a fé, deixaram de a celebrar, só conhecem Deus de nome e nunca experimentaram a alegria de uma intimidade. A todos esses a Igreja diz: regressai sem medo, vós que pelo baptismo vos unistes a Jesus Cristo, e O deixastes tanto tempo à espera de ver germinar em vós a semente de vida que Ele semeou em vós. Vinde e sentireis que a vossa vida descobre um sentido novo no amor de Jesus Cristo.

Não podemos deixar de lançar este apelo à conversão também àqueles que não crêem e que são, connosco, construtores da mesma Cidade. É urgente que a nossa sociedade redescubra um sentido nobre para o nosso viver colectivo, que busque a dignidade, a verdade, a generosidade; construa a justiça, respeite a pessoa humana, promova a paz. É urgente construir um horizonte mais profundo, que enquadre as lutas do presente. Não tenhais medo de Deus; Ele é a verdadeira fonte do sentido da nossa vida.

Que  nenhum cristão hesite em falar de Jesus Cristo aos seus irmãos; e que ninguém leve a mal que lhe falem de Deus. Ele vem sempre por bem, batendo à porta de cada um de nós com humildade e com esperança.

 A entrega do “Kerigma” da missão. São aquelas verdades fundamentais acerca de Jesus Cristo, nosso salvador e que cada cristão tem de ter enraizadas no seu coração, para que as possa anunciar. Elas são o “kerigma para a nossa cidade”; aprofundá-las-ei nas catequeses quaresmais deste ano, esperando que elas sejam a primeira expressão deste “primeiro” anúncio. Rezai pelo vosso Bispo, para que viva cada vez mais estas verdades e possa ser profeta do seu anúncio, neste tempo que é o nosso, nesta cidade que amamos. 

Sé Patriarcal, 25 de Fevereiro de 2004  
 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca 


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por JOSÉ, Cardeal Patriarca Católico de Lisboa
site:www.patriarcado-lisboa.pt

domingo, 6 de março de 2011

Dez conselhos de Bento XVI aos jovens.

- Conversar com Deus 

"Algum de vós poderia, talvez, identificar-se com a descrição que Edith Stein fez da sua própria adolescência, ela, que viveu depois no Carmelo de Colônia: 'Tinha perdido, consciente e deliberadamente, o costume de rezar'. Durante estes dias podereis recuperar a experiência vibrante da oração como diálogo com Deus, porque sabemos que nos ama e, a quem, por sua vez, queremos amar". 

Contar-lhe as penas e alegrias 

"Abri o vosso coração a Deus. Deixe-vos surpreender por Cristo. Dai-lhe o 'direito de vos falar' durante estes dias. Abri as portas da vossa liberdade ao seu amor misericordioso. Apresentai as vossas alegrias e as vossas penas a Cristo, deixando que ele ilumine, com a Sua luz, a vossa mente e toque com a sua graça o vosso coração". 

Não desconfiar de Cristo 

"Queridos jovens, a felicidade que buscais, a felicidade que tendes o direito de saborear tem um nome, um rosto: o de Jesus de Nazaré, oculto na Eucaristia. Só ele dá plenitude de vida à humanidade. Dizei, com Maria, o vosso 'sim' ao Deus que quer entregar-se a vós. Repito-vos, hoje, o que disse no princípio de meu pontificado: 'Quem deixa entrar Cristo na sua vida não perde nada, nada, absolutamente nada do que faz a vida livre, bela e grande. Não! Só com esta amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só com esta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com esta amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta'. Estai plenamente convencidos: Cristo não tira nada do que há de formoso e grande em vós, mas leva tudo à perfeição para a glória de Deus, a felicidade dos homens e a salvação do mundo". 

Estar alegres: querer ser santos 

"Para além das vocações de consagração especial, está a vocação própria de todo o batizado: também é esta uma vocação que aponta para um 'alto grau' da vida cristã ordinária, expressa na santidade. Quando encontramos Jesus e acolhemos o seu Evangelho, a vida muda e somos impelidos a comunicar aos outros a experiência própria. A Igreja necessita de santos. Todos estamos chamados à santidade, e só os santos podem renovar a humanidade. Convido-vos a que vos esforceis nestes dias por servir sem reservas a Cristo, custe o que custar. O encontro com Jesus Cristo vos permitirá apreciar interiormente a alegria da sua presença viva e vivificante, para testemunhá-la depois no vosso ambiente". 

Deus: tema de conversa com os amigos 

"São tantos os nossos companheiros que ainda não conhecem o amor de Deus, ou procuram encher o coração com sucedâneos insignificantes. Portanto, é urgente ser testemunhos do amor que se contempla em Cristo. Queridos jovens, a Igreja necessita de autênticos testemunhos para a nova evangelização: homens e mulheres cuja vida tenha sido transformada pelo encontro com Jesus; homens e mulheres capazes de comunicar esta experiência aos outros". 

Ir à Missa no Domingo 

“Não vos deixeis dissuadir de participar na Eucaristia dominical e ajudai também os outros a descobri-la. Certamente, para que dela emane a alegria que necessitamos, devemos aprender a compreendê-la cada vez mais profundamente, devemos aprender a amá-la. Comprometamo-nos com isso, vale a pena! Descubramos a íntima riqueza da liturgia da Igreja e a sua verdadeira grandeza: não somos os que fazemos uma festa para nós, mas, pelo contrário, é o próprio Deus vivo que prepara uma festa para nós. Com o amor à Eucaristia, redescobrireis, também, o sacramento da Reconciliação, no qual a bondade misericordiosa de Deus permite sempre que a nossa vida comece novamente.” 

Demonstrar que Deus não é triste 

“Quem descobriu Cristo deve levar os outros para Ele. Uma grande alegria não se pode guardar para si mesmo. É necessário transmiti-la. Em numerosas partes do mundo existe hoje um estranho esquecimento de Deus. Parece que tudo anda igualmente sem Ele. Mas, ao mesmo tempo, existe também um sentimento de frustração, de insatisfação de tudo e de todos. Dá vontade de exclamar: Não é possível que a vida seja assim! Verdadeiramente não.” 

Conhecer a fé 

“Ajudai os homens a descobrir a verdadeira estrela que nos indica o caminho: Jesus Cristo. Tratemos, nós mesmos, de conhecê-lo cada vez melhor para poder conduzir também os outros, de modo convincente, a Ele. Por isso é tão importante o amor à Sagrada Escritura e, em conseqüência, conhecer a fé da Igreja que nos mostra o sentido da Escritura.” 

Ajudar: ser útil 

“Se pensarmos e vivermos inseridos na comunhão com Cristo, os nossos olhos se abrem. Não nos conformaremos mais em viver preocupados somente conosco mesmo, mas veremos como e onde somos necessários. Vivendo e atuando assim dar-nos-emos conta rapidamente que é muito mais belo ser úteis e estar à disposição dos outros do que preocupar-nos somente com as comodidades que nos são oferecidas. Eu sei que vós, como jovens, aspirais a coisas grandes, que quereis comprometer-vos com um mundo melhor. Demonstrai-o aos homens, demonstrai-o ao mundo, que espera exatamente este testemunho dos discípulos de Jesus Cristo. Um mundo que, sobretudo mediante o vosso amor, poderá descobrir a estrela que seguimos como crentes.” 

Ler a Bíblia 

"O segredo para ter um 'coração que entenda' é edificar um coração capaz de escutar. Isto é possível meditando sem cessar a palavra de Deus e permanecendo enraizados nela, mediante o esforço de conhecê-la sempre melhor. Queridos jovens, exorto-vos a adquirir intimidade com a Bíblia, a tê-la à mão, para que seja para vós como uma bússola que indica o caminho a seguir. Lendo-a, aprendereis a conhecer Cristo. São Jerônimo observa a este respeito: 'O desconhecimento das Escrituras é o desconhecimento de Cristo'" 

Em resumo: 

“Construir a vida sobre Cristo, acolhendo com alegria a palavra e pondo em prática a doutrina: eis aqui, jovens do terceiro milênio, o que deve ser o vosso programa! É urgente que surja uma nova geração de apóstolos enraizados na palavra de Cristo, capazes de responder aos desafios do nosso tempo e dispostos a difundir o Evangelho por toda a parte. Isto é o que o Senhor vos pede, a isto vos convida a Igreja, isto é o que o mundo - ainda que não saiba - espera de vós! E se Jesus vos chama, não tenhais medo de responder-lhe com generosidade, especialmente quando vos propõe seguí-lo na vida consagrada ou na vida sacerdotal. Não tenhais medo; confiai n'Ele e não ficareis decepcionados.” 

Fonte: www.comunidadebeatitudes.com

quarta-feira, 2 de março de 2011

O segredo da tua felicidade é Cristo!

A juventude é uma das fases mais desejadas pelo ser humano. É muito comum vermos crianças e adolescentes sonhando com o dia que se tornarão moças e rapazes e poderão sair dirigindo seu próprio carro pela cidade sem dar satisfações aos pais. No outro extremo nos deparamos com adultos contando com grande carga de emoção os dias da sua mocidade, as aventuras experimentadas e os sonhos idealizados.

Por certo, esta época é vivida com grande intensidade... Uma marca fortíssima no coração dos jovens é o desejo muito grande de viver, de aproveitar ao máximo a vida. Por um lado isto é muito positivo. Porém, a maioria dos jovens estão sendo vítimas de uma interpretação errada do que vem a ser de fato o “aproveitar a vida”. A realidade tem mostrado uma busca intensa por algo que é passageiro, momentâneo: sexo, “ficas”, farras, consumismo exagerado, super valorização do corpo, drogas, orgias, etc. Tudo isso poderá até proporcionar uma sensação de “prazer”, mas esta, acabará logo.

Digo mais, quando o efeito dessa “anestesia” passa, a sensação de vazio aumenta e os sentimentos que invadem o ser acusam justamente que esses jovens estão, na verdade, jogando fora a áurea fase da sua vida, trocando a construção de uma felicidade eterna por uma pseudo e rápida “alegria”.

Creio eu que algo que contribui para que o jovem aceite correr tantos riscos em nome desse desejo de “curtir a vida”, experimentando de tudo o que o mundo possa oferecer, é a sensação de que terá ainda uma vida inteira pela frente para se empenhar naquilo que realmente é importante. Mas quanto tempo ainda teremos pela frente??? Basta usarmos melhor a cabeça para descobrir que o nosso amanhã, a nossa vida está unicamente nas mãos de Deus. A jovialidade não garante para ninguém uma vida longa!!! Vale a pena então eu direcionar minha vida em busca de prazeres que não me acrescentam em nada, muito pelo contrário?

No começo desta matéria eu usei a palavra vítima e, realmente, acho que ela foi bem empregada. Todos estão na verdade em busca de algo que os preencham, que satisfaçam seu anseios, que acabe com a sensação de vazio. E é aí que são enganados... Se temos uma necessidade, o melhor caminho é descer à sua raiz, e não apenas satisfaze-la por algum tempo, pois a mesma voltará com uma força ainda maior.

Darei um exemplo: certa vez estava com dor de dente e, em vez de procurar um dentista, tentei “dar um jeito”. Evitava sempre comer do lado doído e quando a dor apertava, corria para uma farmácia e comprava um remédio que me “curava”. Resultado: ao invés de fazer uma simples obturação tive que me submeter a um complicado tratamento de canal. Antes eu tivesse corrido à raiz do problema no primeiro sinal de dor.

Na vida dos jovens ocorre algo semelhante. Suas atitudes expressam um desejo interior, uma busca por algo que nem eles sabem o que é. É preciso descer à raiz e descobrir a origem dos seus anseios, da sua “sede”. Se isto acontecer, facilmente descobrirão o que está faltando: DEUS! Só Ele, como disse uma santa jovem, poderá superar todas as nossas expectativas. Só Ele tem palavras de vida eterna... Com Deus, a vida passa a ter mais aventuras, mais sentido, mais surpresas. A sensação de felicidade é duradoura, ou melhor, é eterna...

Direciono essas palavras para a juventude, pois sendo eu também um jovem, me preocupa perceber que o mundo está invertendo o sentido da verdadeira felicidade, que não consiste em levar uma vida atolada nos prazeres da carne, mas em buscar sempre forças para se unir ao Cristo casto; não consiste em ter uma independência de tudo e de todos, mas em ter a humildade de assumir sua incapacidade de “não saber por onde ir” e, por isso, se submeter a Deus; não consiste em ser o mais famoso da turma, o que mais chama a atenção para si, aquele que passa por cima de tudo e de todos, o que conquista mais “minas”, e sim em ser o mais simples, o que está sempre disponível, o que “se abaixa”, o que valoriza o outro pelo que ele é.

Jovem, o segredo da tua felicidade é Cristo! Ele está vivo! Não te convido a seguir uma ideia, uma farsa, mas o Deus Vivo e Todo-Poderoso que veio a nós através de seu amado Filho Jesus. É preciso ter coragem e assim buscar conhecer a pessoa maravilhosa, amiga, fiel, sábia que é Jesus. Só Ele tem o que tu buscas: paz, amizade, radicalidade, verdade, saúde, aventura, fidelidade, amor.

Ter um encontro com Jesus não é coisa de beato ou fanático, mas de jovens que não tendo medo do transcendente, não se deixam manipular por preconceitos ou modas, mas percebem em si um profundo desejo de eternidade, de céu. É fácil reconhecer um jovem que encontrou a Jesus, seu olhar é pacificado, suas palavras são sábias, seu coração é manso e humilde, sua mãos são amigas e generosas, sua vida é abençoada! Se queres aproveitar ao máximo a tua juventude, uma coisa só te é necessária: Correr para os braços daquele que anseia por te amar e te dar vida eterna. Lá descobriremos a razão da nossa juventude..

Fonte: Revista Shalom Maná
Rafael Porto Cabral Consagrado na Comunidade de Aliança Shalom

terça-feira, 1 de março de 2011

Ronaldo Pereira, membro da Comunidade de Vida Shalom, o qual Deus quis bem cedo ao seu lado (Faleceu aos 24 anos, mesma idade que Santa Teresinha tinha ao partir para o paraíso).Como coordenador do Projeto Juventude, o Ronaldo dizia: "Quero dar a minha vida pelos jovens!", isso de fato aconteceu.

A sobriedade do jovem

Caríssimos filhos
Este encontro semanal do Papa com os jovens e os adolescentes — tão entusiasta e tão cheio de vivacidade verdadeiramente sinal de alegria e de esperança. Sinal de alegria, porque onde há jovens, adolescentes ou crianças, há certeza de alegria, uma vez que está a vida no seu florir mais espontâneo e viçoso. Vós possuís em abundância e dais generosamente esta "alegria de viver" a um mundo que às vezes esta cansado, desanimado, desconfiado e desiludido.Sinal de esperança é também este nosso encontro, porque os adultos — não só os vossos pais mas também os vossos professores e todos quantos ajudam o vosso crescimento e maturação física e intelectual — vêem em vós aqueles que hão-de realizar aquilo que eles, pela variedade das circunstâncias, não puderam talvez levar a termo.
Portanto, um jovem sem alegria e sem esperança não é autêntico jovem, mas homem murcho e envelhecido antes de tempo. Por isso vos diz o Papa: Levai, comunicai e irradiai a alegria e a esperança! O assunto da Audiência de hoje está profundamente relacionado com tudo o que recordei até agora: nas quartas-feiras precedentes, continuando o esquema deixado quase como testamento pelo meu saudoso Predecessor João Paulo I, falei das virtudes cardeais: prudência, justiça e fortaleza. Hoje quero deter-vos brevemente com a quarta virtude cardeal: atemperança, a sobriedade. São Paulo escrevia a seu discípulo Tito, que deixara como bispo na ilha de Creta: Exorta os jovens a serem sóbrios (Tit 2, 6). Seguindo eu também a exortação do Apóstolo das Gentes, desejaria começar por dizer que as atitudes do homem, provenientes de cada uma das virtudes cardeais, são entre si interdependentes e unidas. Não se pode ser homem verdadeiramente prudente, nem autenticamente justo, nem realmente forte, não se possuindo a virtude da temperança. Esta condiciona indirectamente todas as outras virtudes; mas também estas são indispensáveis para que o homem possa ser "temperante" ou "sóbrio".Temperantia est commune virtutum cognomen — escrevia no século VI São João Clímaco (Escada do Paraíso, 15) — isto é, poderíamos traduzir, "a temperança é o denominador comum de todas as virtudes".
Poderia parecer estranho falar da temperança ou da sobriedade a jovens e a adolescentes. Mas, filhos caríssimos, esta virtude cardeal é necessária de modo particular a vós, que vos encontrais no período maravilhoso e delicado, em que a vossa realidade biopsíquica cresce até à maturação perfeita para serdes capazes, física e espiritualmente, de enfrentar as alternativas da vida nas suas mais desvairadas exigências.
Temperante é aquele que não abusa dos alimentos, das bebidas e dos prazeres; que não toma desmedidamente bebidas alcoólicas; que não se priva da consciência mediante uso de estupefacientes ou drogas. Em nós podemos imaginar um "eu inferior" e um "eu superior". No nosso "eu inferior" exprime-se o nosso "corpo" com as suas carências, os seus desejos, as suas paixões de natureza sensível. A virtude da temperança garante a cada homem o domínio do "eu superior" sobre o do "inferior". Trata-se, talvez, neste caso, de humilhação, de diminuição para o nosso corpo? Pelo contrário! Esse domínio valoriza-o, exalta-o.
O homem temperante é aquele que é senhor de si mesmo; aquele em que as paixões não tomam a supremacia sobre a razão, sobre a vontade e também sobre o coração. Entendamos portanto como a virtude da temperança é indispensável para que o homem seja plenamente homem, para que o jovem seja autenticamente jovem. O triste e aviltante espectáculo dum alcoólico ou dum drogado faz-nos compreender claramente como "ser homem" significa, antes de qualquer outra coisa, respeitar a própria dignidade, isto é, deixar-se alguém conduzir pela virtude da temperança. Dominar-se a si mesmo, as próprias paixões e a sensualidade não significa de maneira nenhuma tornar-se alguém insensível ou indiferente; a temperança de que falamos é virtude cristã, que aprendemos com o ensino e o exemplo de Jesus, e não com a chamada moral "estóica".
A temperança exige de cada um de nós urna especial humildade a respeito dos dons que Deus colocou na nossa natureza humana. Há a "humildade do corpo" e a do "coração". Esta humildade é condição necessária para a harmonia interior do homem, para a sua beleza íntima. Reflecti bem nisto, vós jovens, que estais precisamente na idade em que tanto se estima ser belo ou bela para agradar aos outros! Um jovem e uma jovem devem ser belos primeiramente e sobretudo interiormente. Sem tal beleza interior, todos os outros esforços que só tenham o corpo por objecto não farão — nem dum jovem nem duma jovem — uma pessoa verdadeiramente bela.
Desejo, filhos caríssimos, que irradieis sempre beleza interior.


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por Papa João Paulo II *